O gene que os centenários têm e você talvez não: por dentro do FOXO3

Existe um punhado de genes que aparece, de novo e de novo, no DNA de quem passa dos cem. Entender o que eles fazem muda a forma como você encara os próprios hábitos.

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Há uma pergunta que persegue os pesquisadores de longevidade há décadas: por que algumas pessoas atravessam os noventa, os cem, os cento e dez anos com relativa saúde, enquanto outras adoecem cedo? Parte da resposta está escrita em três ou quatro genes que reaparecem, com teimosia estatística, nos estudos com centenários ao redor do mundo.

O gene que se repete de Okinawa a Nova York

O nome mais recorrente é FOXO3. Ele funciona como uma espécie de gerente-geral da célula: regula a resposta ao estresse oxidativo, a sinalização de insulina e os mecanismos de reparo interno. Variantes específicas desse gene aparecem associadas à longevidade excepcional em populações muito diferentes entre si, de nipo-americanos no Havaí a europeus, o que sugere um mecanismo profundo, e não uma coincidência local.

Outro protagonista é o APOE, conhecido por seu papel no risco de Alzheimer. A variante APOE4 aumenta esse risco; já as versões APOE2 e APOE3 se associam a vidas mais longas e menos inflamação. Famílias longevas costumam concentrar a variante protetora numa proporção acima da média.

A lição contraintuitiva de Nir Barzilai

O médico Nir Barzilai, diretor do Instituto de Pesquisa sobre o Envelhecimento do Albert Einstein College of Medicine, em Nova York, dedicou boa parte da carreira a estudar centenários judeus asquenazes. Sua descoberta mais provocadora não foi um gene, mas um padrão de comportamento: muitos de seus centenários estavam acima do peso, não se exercitavam e não comiam o que os manuais recomendam. Ainda assim, chegaram aos cem.

A genética favorável parece funcionar como um amortecedor, capaz de compensar hábitos que derrubariam a maioria das pessoas.

Barzilai identificou também mutações em genes ligados ao colesterol, como o CETP e o APOC3, que protegem contrapressão alta e reduzem o risco de doenças cardíacas. Em uma população de judeus asquenazes de Nova York, essas mutações apareceram com frequência incomum entre os mais longevos.

O que isso muda para quem não nasceu com a loteria genética

Aqui está o dado que reposiciona toda a conversa: os cientistas estimam que a longevidade seja cerca de 25% atribuível aos genes e 75% ao ambiente e ao estilo de vida. Mas essa proporção se inverte nos extremos. Quanto mais perto dos cem anos, mais o peso da genética cresce.

Ou seja: para viver bem até os oitenta, seus hábitos mandam. Para virar centenário, você provavelmente precisa de uma ajuda dos ancestrais. Barzilai chega a brincar que ninguém deveria seguir conselhos de saúde de um centenário, porque, para eles, o estilo de vida talvez não tenha feito tanta diferença assim.

A boa notícia é que a ciência trabalha para copiar farmacologicamente o efeito desses genes. Se um dia for possível reproduzir o que o FOXO3 ou o CETP fazem naturalmente, a vantagem dos centenários deixará de ser privilégio de nascimento.

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