Células zumbis: o que são, por que acumulam no seu corpo e o que a ciência já consegue fazer para eliminá-las

Existe uma população de células no seu corpo que não funciona mais como deveria, mas que também se recusa a morrer. Os pesquisadores as chamam de células senescentes. O nome popular, menos formal mas igualmente preciso, é “células zumbis” — e ele captura bem o problema.

Como uma célula vira zumbi

Em condições normais, quando uma célula envelhece, sofre danos ao DNA ou chega ao limite do número de divisões possíveis, ela ativa um mecanismo de autodestruição programada chamado apoptose. A célula morre de forma organizada, é reciclada pelo sistema imunológico e dá espaço para células novas e saudáveis. É um processo elegante, e funciona bem durante a maior parte da vida.

O problema começa quando esse mecanismo falha ou é deliberadamente suspenso. A célula para de se dividir — o que é bom, porque evita a multiplicação descontrolada que caracteriza o câncer — mas não morre. Fica num estado intermediário, um limbo biológico. E nesse estado, passa a secretar um coquetel inflamatório de proteínas e moléculas que os cientistas batizaram de SASP (do inglês, Senescence-Associated Secretory Phenotype).

Esse coquetel é tóxico para o tecido ao redor. Ele promove inflamação crônica de baixo grau, interfere na função de células vizinhas saudáveis e, com o tempo, compromete a capacidade regenerativa dos tecidos. O acúmulo progressivo de células senescentes ao longo da vida está diretamente associado a doenças cardiovasculares, declínio cognitivo, fragilidade muscular e perda de mobilidade.

Por que o sistema imune não resolve sozinho

Em pessoas jovens, o sistema imunológico identifica e elimina células senescentes de forma eficiente. Com o envelhecimento, essa capacidade de vigilância diminui — e as células zumbis começam a se acumular mais rápido do que são eliminadas. É um ciclo que se retroalimenta: a inflamação causada pelas células senescentes compromete ainda mais o sistema imune, que fica menos capaz de eliminá-las.

Os senolíticos: a nova classe de compostos que elimina as zumbis

O campo dos senolíticos estuda compostos capazes de induzir a morte seletiva de células senescentes sem afetar as células saudáveis ao redor. A combinação mais estudada é a D+Q — dasatinibe, um quimioterápico já aprovado para leucemia, combinado com quercetina, um flavonoide presente naturalmente em maçãs, cebolas e alcaparras.

Em 2015, pesquisadores da Clínica Mayo de Minnesota e do Instituto de Pesquisa Scripps da Flórida mostraram que a combinação D+Q destruía células senescentes em camundongos de idade avançada. Os resultados foram promissores o suficiente para impulsionar uma série de ensaios clínicos em humanos. Bruzzi

Um dos resultados mais concretos veio da Unity Biotechnology. Um senolítico chamado foselutoclax beneficiou participantes com edema macular avançado relacionado ao diabetes: uma única injeção na câmara posterior do olho melhorou a visão, especialmente no escuro, por pelo menos seis meses. Bruzzi

A pesquisa com CAR-T — células imunológicas geneticamente modificadas para reconhecer e destruir células senescentes — representa outra fronteira. Pesquisadores do Laboratório Cold Spring Harbor em Nova York identificaram uma proteína chamada uPAR presente nas células senescentes do fígado, dos tecidos adiposos e do pâncreas de camundongos mais velhos, e desenvolveram células CAR-T capazes de eliminar especificamente as células que carregam esse marcador. Belezaesaudehoje

O que ainda não sabemos

O maior obstáculo técnico é a heterogeneidade das células senescentes. Até nos mesmos tecidos podem ocorrer numerosas subpopulações distintas de células senescentes, e células totalmente diferentes podem compartilhar características de senescência. O problema é que ainda não temos bons marcadores que as separem com precisão. Isso significa que um senolítico pode eliminar células que não deveriam ter esse destino — um risco real que os pesquisadores levam a sério. Bruzzi

Há também a questão de que as células senescentes não são apenas vilãs. Elas têm papel biológico em processos como cicatrização de feridas, desenvolvimento embrionário e supressão de tumores. Eliminar todas elas indiscriminadamente não é a resposta.

O campo está avançando rápido. Para quem acompanha de longe, o recado é de expectativa informada: a ciência das células zumbis é uma das apostas mais sólidas da medicina do envelhecimento, com estudos sérios em andamento e os primeiros resultados clínicos em humanos disponíveis. Ainda não chegou ao consultório como protocolo estabelecido — mas está mais perto disso do que estava há cinco anos.

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